Alterações de curto prazo na densidade celular endotelial associadas à trabeculotomia transluminal assistida por gonioscopia

Short-term endothelial cell density changes after gonioscopy-assisted transluminal trabeculotomy

Alterações de curto prazo na densidade celular endotelial associadas à trabeculotomia transluminal assistida por gonioscopia

Autores:
Bruno Mendes de Faria¹, Gustavo Henrique de Lima Melillo², Fabio Daga³˒⁴, Fabio Nishimura Kanadani²˒⁵, Tiago Santos Prata³˒⁵

¹ Hospital Universitário Onofre Lopes, Natal, RN, Brasil.
² Department of Glaucoma, Instituto de Olhos Ciências Médicas, Belo Horizonte, MG, Brasil.
³ Department of Ophthalmology, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.
⁴ Ver Excelência em Oftalmologia, Goiânia, GO, Brasil.
⁵ Department of Ophthalmology, Mayo Clinic, Jacksonville, FL, EUA.

Publicado em: Arquivos Brasileiros de Oftalmologia (Ahead of Print, 2021).
DOI: 10.5935/0004-2749.20220052
Licença: Creative Commons Attribution 4.0 International License


Resumo

Objetivo: Investigar a redução na densidade celular endotelial corneana associada à trabeculotomia transluminal assistida por gonioscopia (GATT) em curto prazo.

Métodos: Análise retrospectiva de prontuários de pacientes com glaucoma de ângulo aberto submetidos à GATT isolada ou combinada com facoemulsificação (faco-GATT). Pacientes submetidos à facoemulsificação isolada foram incluídos como grupo controle. Foram comparadas as medidas de densidade celular endotelial obtidas por microscopia especular antes e um mês após a cirurgia.

Resultados: Sessenta e dois olhos preencheram os critérios de inclusão (GATT isolada, n=39; faco-GATT, n=23). A idade média foi 61,3 ± 18,4 anos no grupo GATT isolada e 60,4 ± 11,9 anos no grupo faco-GATT. Homens representaram 66,6% e 56,5% dos grupos, respectivamente. A redução média da densidade celular endotelial foi de 28,8 células/mm² (1,31%; p=0,467) no grupo GATT e de 89,4 células/mm² (4,36%; p=0,028) no grupo faco-GATT. Nos olhos controle, a variação foi de 114,1 ± 159,8 células/mm² (4,41%; p=0,505). A perda endotelial do grupo faco-GATT não foi significativamente diferente do grupo controle (p=0,81).

Conclusão: A GATT, isolada ou combinada à cirurgia de catarata, mostrou-se segura para a camada endotelial da córnea em curto prazo.

Descritores: Glaucoma de ângulo aberto; Perda de células endoteliais da córnea; Extração de catarata; Malha trabecular; Gonioscopia/métodos; Trabeculectomia/métodos


Introdução

O glaucoma é uma neuropatia óptica multifatorial caracterizada pela degeneração progressiva das células ganglionares da retina e perda de axônios. Apesar da fisiopatologia não ser totalmente compreendida, o aumento da pressão intraocular (PIO) está fortemente relacionado à progressão da doença. Assim, o tratamento baseia-se na redução da PIO para prevenir danos estruturais e funcionais adicionais.

Tradicionalmente, o controle pressórico é obtido por medicações tópicas, laser ou cirurgias filtrantes. Mais recentemente, procedimentos minimamente invasivos (MIGS) surgiram como alternativas seguras e rápidas, especialmente para casos de glaucoma de ângulo aberto com necessidade de reduções moderadas da PIO.

A trabeculotomia ab interno, denominada gonioscopy-assisted transluminal trabeculotomy (GATT), descrita por Grover et al., é uma abordagem cirúrgica inovadora que reduz a PIO ao melhorar o escoamento do humor aquoso pelo canal de Schlemm, preservando a conjuntiva. Resultados favoráveis de eficácia e segurança vêm sendo relatados, com poucas complicações pós-operatórias graves.

Contudo, os possíveis efeitos da GATT sobre a densidade celular endotelial (ECD) da córnea ainda não haviam sido estudados, o que motivou esta investigação.


Métodos

Estudo retrospectivo de série de casos realizado no Hospital Universitário Onofre Lopes (UFRN), seguindo a Declaração de Helsinque e aprovado pelo Comitê de Ética (#3.906.084).

Foram incluídos pacientes com glaucoma de ângulo aberto submetidos à GATT isolada ou associada à facoemulsificação entre janeiro de 2017 e fevereiro de 2020. Incluíram-se apenas casos com dados completos de PIO, densidade celular endotelial e detalhes cirúrgicos. Foram excluídos olhos com doenças corneanas, trauma ocular ou cirurgias intraoculares prévias nos últimos seis meses.

O desfecho primário foi a variação na densidade celular endotelial após GATT e faco-GATT. Como controle, incluiu-se um grupo de pacientes submetidos à facoemulsificação isolada.

Técnica cirúrgica

Todas as cirurgias foram realizadas pelo mesmo cirurgião (B.M.F.). Após paracenteses nasal e temporal, injetou-se solução com lidocaína e carbacol, seguida de viscoelástico (metilcelulose 2%). Criou-se uma goniotomia nasal com agulha 26G e introduziu-se uma sutura de polipropileno 5-0 termicamente atenuada, avançada 360° pelo canal de Schlemm com auxílio de pinça microcirúrgica. A remoção da sutura completou a trabeculotomia circunferencial.

Nos casos de faco-GATT, realizou-se a facoemulsificação e implante de lente intraocular antes do GATT. Todos receberam moxifloxacino, pilocarpina 2% e prednisolona 1% no pós-operatório.

Análise estatística

Foram aplicados testes t pareado, Wilcoxon e t independente conforme a distribuição dos dados (p < 0,05). As análises foram conduzidas no software MedCalc.


Resultados

Foram avaliados 62 olhos (39 GATT, 23 faco-GATT).

A densidade celular endotelial média pré-operatória foi de 2181,6 ± 481,2 células/mm² no grupo GATT e 2136,9 ± 418,6 células/mm² no grupo faco-GATT. Após 30 dias, a ECD foi 2152,8 ± 425,3 células/mm² (redução de 1,31%; p=0,467) e 2047,5 ± 421,6 células/mm² (redução de 4,36%; p=0,028), respectivamente.

Nos controles (faco isolada), a variação média foi 4,41% (p=0,505), sem diferença significativa em relação ao grupo faco-GATT (p=0,815).

A PIO média reduziu-se de 24,0 ± 7,8 para 11,0 ± 2,1 mmHg (GATT; p<0,001) e de 27,0 ± 8,3 para 12,4 ± 4,0 mmHg (faco-GATT; p<0,001). O número médio de medicações caiu de 3,6 para 0,8 no grupo GATT e de 3,5 para 0,6 no grupo faco-GATT (p<0,001).

Hipema transitório ocorreu em 58,9% (GATT) e 43,4% (faco-GATT), com resolução em até 3 dias.

Apenas 4 olhos (6,5%) apresentaram perda endotelial >20%, sem correlação com a extensão da trabeculotomia (90° a 360°).


Discussão

A inovação cirúrgica é essencial no avanço da oftalmologia, e a segurança das novas técnicas deve ser cuidadosamente avaliada. Olhos glaucomatosos tendem a apresentar redução progressiva de células endoteliais devido à idade, uso de colírios e ao próprio glaucoma, o que torna relevante o estudo dos efeitos de cada cirurgia sobre o endotélio.

Neste estudo, a GATT — isolada ou combinada à facoemulsificação — não resultou em perda endotelial clinicamente significativa. A taxa média de redução da ECD foi comparável ou inferior à observada em outras cirurgias minimamente invasivas e muito menor do que a descrita em procedimentos filtrantes tradicionais com mitomicina C, que variam entre 3% e 11,4%.

Comparando-se a outras MIGS, o GATT mostrou desempenho semelhante ou melhor em termos de segurança endotelial, especialmente por não deixar implantes na câmara anterior.

Acredita-se que o uso de viscoelástico, a manipulação delicada e o tempo cirúrgico reduzido contribuam para essa preservação.


Conclusão

A GATT, isolada ou associada à facoemulsificação, não causa perda significativa de células endoteliais corneanas no curto prazo, demonstrando um perfil de segurança favorável entre as cirurgias MIGS.

Estudos longitudinais são necessários para confirmar a estabilidade dos achados em longo prazo.


Autor correspondente:
Dr. Tiago Santos Prata – E-mail: tprata0807@gmail.com

Aprovação ética:
Comitê de Ética do Hospital Universitário Onofre Lopes (#3.906.084)

Financiamento:
Nenhum suporte financeiro específico.

Conflitos de interesse:
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.


Referência:
Faria BM, Melillo GHL, Daga F, Kanadani FN, Prata TS. Short-term endothelial cell density changes after gonioscopy-assisted transluminal trabeculotomy. Arq Bras Oftalmol. 2021 – Ahead of Print. DOI: 10.5935/0004-2749.20220052


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Médico Oftalmologista especialista em glaucoma

Atuo com foco no diagnóstico, prevenção e tratamento do glaucoma em suas diversas formas — adulto, congênito, infantil e juvenil. Além disso, realizo cirurgias avançadas e exames de alta precisão, sempre com base em ciência e tecnologia de ponta.

Mais de 13 anos de experiência clínica e cirúrgica

Minha trajetória é marcada por dedicação constante à oftalmologia e ao ensino. Trouxe e aprimorei no Brasil a técnica de cirurgia minimamente invasiva para glaucoma (GATT), tornando-me referência nacional e responsável por ensinar profissionais em todo o país.

Reconhecimento, formação internacional e inovação

Com formação em instituições de referência como a Universidade de São Paulo (USP), a UNICAMP e o Wills Eye Institute (EUA), o Dr. Bruno Faria construiu uma trajetória marcada pela dedicação à pesquisa, ao ensino e à inovação cirúrgica. Reconhecido por sua atuação em glaucoma, destaca-se pela combinação entre conhecimento técnico, atualização constante e cuidado humanizado com seus pacientes.

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