24-Month Outcomes of Gonioscopy-Assisted Transluminal Trabeculotomy for Congenital Glaucoma
Resultados de 24 meses da trabeculotomia transluminal assistida por gonioscopia no glaucoma congênito primário
Autores:
Maria Betânia Calzavara Lemos¹, Bruno Mendes de Faria², Mariana Botrel Cunha¹, Frederico de Miranda Cordeiro¹, Pedro Hélio Estevam Ribeiro Júnior¹, Ana Luiza Bassoli Scoralick¹,³, Fábio Bernardi Daga³,⁴, Fabio Nishimura Kanadani³,⁵, Tiago Santos Prata¹,³,⁵
¹ Glaucoma Unit, Hospital Medicina dos Olhos, São Paulo, SP, Brasil.
² Hospital Universitário Onofre Lopes, Natal, RN, Brasil.
³ Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.
⁴ Ver Excelência em Oftalmologia, Goiânia, GO, Brasil.
⁵ Mayo Clinic, Jacksonville, FL, EUA.
Publicado em: Arquivos Brasileiros de Oftalmologia, 2025;88(6):e2024-0309
DOI: 10.5935/0004-2749.2024-0309
Licença: Creative Commons Attribution 4.0 International License
Aprovação ética: Hospital Universitário Onofre Lopes (CAAE: 29025120.6.0000.5292)
Autor correspondente: Dr. Tiago Santos Prata — t.prata0807@gmail.com
Resumo
Objetivo: Relatar os desfechos cirúrgicos de pacientes com glaucoma congênito primário (PCG) submetidos à trabeculotomia transluminal assistida por gonioscopia (GATT).
Métodos: Estudo retrospectivo, intervencional e não comparativo incluindo pacientes consecutivos com PCG e pressão intraocular (PIO) não controlada, submetidos à GATT entre janeiro de 2017 e janeiro de 2020. Todos os procedimentos foram realizados por um único cirurgião, e o seguimento mínimo foi de 24 meses. Foram documentados o número de medicações, PIO pré e pós-operatória, extensão do tratamento (em quadrantes), complicações e eventos associados.
Resultados: Treze olhos de 10 pacientes (idade média 4,5 ± 3,2 anos; intervalo: 3 meses a 10 anos) foram incluídos. Após 24 meses, a PIO média reduziu de 26,1 ± 3,7 para 11,8 ± 2,5 mmHg (p<0,001). O número médio de medicações caiu de 3,3 ± 0,5 para 0,85 ± 1,0 (p<0,001). Todos os olhos apresentaram PIO entre 7 e 15 mmHg ao final do seguimento. Em 84,6% dos casos, a GATT foi realizada em 360°. A complicação mais comum foi o hifema transitório (53,8%), sem eventos graves.
Conclusões: A GATT mostrou-se uma opção eficaz e segura para o tratamento do glaucoma congênito primário, com mínimas complicações pós-operatórias em 24 meses de acompanhamento.
Descritores: Glaucoma congênito; Gonioscopia; Trabeculotomia; Pressão intraocular; Tratamento cirúrgico
Introdução
O glaucoma congênito primário (PCG) é uma condição rara que acomete aproximadamente 1 em cada 10.000 crianças no primeiro ano de vida. Trata-se de uma das doenças oculares mais relevantes da infância, com potencial de causar cegueira irreversível se não diagnosticada e tratada precocemente.
Sua fisiopatologia envolve anomalias no desenvolvimento do ângulo da câmara anterior e da malha trabecular, resultando em resistência aumentada ao escoamento do humor aquoso e consequente elevação da PIO. Achados clínicos comuns incluem buftalmo, edema corneano, epífora e fotofobia.
O tratamento cirúrgico precoce é fundamental para bom prognóstico visual. Goniotomia e trabeculotomia são considerados procedimentos-padrão. A escolha depende de fatores como idade, transparência corneana e experiência do cirurgião.
Recentemente, técnicas ab interno, como a trabeculotomia transluminal assistida por gonioscopia (GATT), surgiram como alternativas menos invasivas, preservando conjuntiva e esclera. Embora bem estudada em adultos, há escassez de dados sobre o uso da GATT em PCG — lacuna que este estudo busca preencher.
Métodos
Estudo retrospectivo aprovado pelo Comitê de Ética do Hospital Onofre Lopes, seguindo a Declaração de Helsinque. Incluíram-se pacientes <14 anos com diagnóstico de PCG e PIO não controlada, submetidos à GATT entre 2017 e 2020. Foram excluídos olhos com glaucoma secundário, sinéquias anteriores ≥90°, córnea opaca ou GATT <90°.
Os dados incluíram idade, sexo, acuidade visual, PIO (pré e pós), número de medicações, extensão da cirurgia (em quadrantes), complicações e procedimentos adicionais.
Critério de sucesso: PIO final entre 7 e 15 mmHg sem reoperação ou perda visual.
Falha: PIO >15 mmHg em duas consultas consecutivas, perda de percepção luminosa ou necessidade de nova cirurgia.
Técnica Cirúrgica
Todas as cirurgias foram realizadas por um único cirurgião (B.M.F.).
Após paracenteses nasal e temporal, injetaram-se lidocaína e carbacol, seguidos de metilcelulose 2%. Criou-se uma goniotomia nasal com agulha 26G, e uma sutura de polipropileno 5-0 com ponta romba foi introduzida no canal de Schlemm, percorrendo-o até emergir novamente na incisão inicial.
A remoção da sutura produziu uma trabeculotomia circunferencial (90°–360°). Quando havia resistência, realizava-se nova incisão. O viscoelástico era usado para controlar hifema e hipotonia.
Pós-operatório: pilocarpina 2% (2x/dia por 2 semanas), moxifloxacino (4x/dia por 1 semana) e prednisolona 1% (4 semanas em desmame). O uso de colírios hipotensores era individualizado conforme a evolução.
Resultados
Foram avaliados 13 olhos de 10 pacientes (60% mulheres).
A maioria (77%) havia sido submetida previamente a cirurgias de glaucoma (trabeculotomia, goniotomia ou trabeculectomia).
Após 24 meses:
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PIO reduziu de 26,1 ± 3,7 para 11,8 ± 2,5 mmHg (p<0,001);
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Número de medicações caiu de 3,3 ± 0,5 para 0,85 ± 1,0 (p<0,001);
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Todos os olhos mantiveram PIO entre 7–15 mmHg;
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84,6% tiveram GATT completa (360°).
A complicação mais frequente foi hifema transitório (53,8%), com resolução média em 5,8 dias. Nenhum caso apresentou perda visual ou complicações graves.
Discussão
A trabeculotomia e a goniotomia continuam sendo o padrão-ouro no tratamento do PCG. Contudo, há busca contínua por alternativas menos invasivas e de alta eficácia.
A GATT mostrou-se uma técnica promissora, combinando redução expressiva da PIO e segurança. Após dois anos, a redução média da PIO foi de 54,8%, similar ou superior a estudos prévios (37–77%). A taxa de sucesso de 100% no presente estudo é notável, embora influenciada pelo tamanho amostral e tempo de seguimento.
A maioria dos pacientes já havia passado por outras cirurgias, e mesmo assim o GATT manteve bons resultados, reforçando seu potencial em casos refratários. Não foram observadas complicações graves, corroborando seu perfil de segurança.
As principais limitações incluem número reduzido de casos, natureza retrospectiva e ausência de medidas estruturais (como comprimento axial). Estudos multicêntricos, com maior amostragem e seguimento prolongado, são necessários para confirmar a durabilidade dos resultados.
Conclusão
A trabeculotomia transluminal assistida por gonioscopia (GATT) é uma opção eficaz e segura para o tratamento do glaucoma congênito primário.
Apresenta baixa taxa de complicações, preserva estruturas oculares e oferece controle pressórico duradouro, inclusive em olhos com cirurgias prévias.
Financiamento: Nenhum apoio financeiro específico.
Conflitos de interesse: Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
Referência:
Lemos MBC, Faria BM, Cunha MB, Cordeiro FM, Ribeiro Jr PHE, Scoralick ALB, Daga FB, Kanadani FN, Prata TS. 24-Month outcomes of gonioscopy-assisted transluminal trabeculotomy for congenital glaucoma. Arq Bras Oftalmol. 2025;88(6):e2024-0309. DOI: 10.5935/0004-2749.2024-0309