Avaliação da eficácia de um novo marcador cirúrgico para capsulorrexe anterior
Effectiveness evaluation of a new surgical marker for anterior capsulorhexis
Autores:
Marco Antônio Rey de Faria¹, Marcos Pereira de Ávila², Francisco Irochima Pinheiro³, Bruno Mendes de Faria⁴, Vinicius Nunes de Paiva Saraiva⁵, Joana Mendez Dantas de Miranda⁵, Germana Mariz Queiroga Veras Pinto⁵, Leonardo Ugulino de Araújo Neto⁵, Débora Cristiana Pereira Fernandes Santos⁶
¹ Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Penedo, Caicó – RN, Brasil.
² Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Goiás (GO), Brasil.
³ Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal – RN, Brasil.
⁴ Serviço de Oftalmologia, Hospital Universitário Onofre Lopes, Natal – RN, Brasil.
⁵ Serviço de Oftalmologia do Hospital Universitário Onofre Lopes, UFRN, Natal – RN, Brasil.
⁶ Prontoclínica de Olhos, Natal – RN, Brasil.
Publicado em: Revista Brasileira de Oftalmologia, 2017; 76(1): 11–16.
DOI: 10.5935/0034-7280.20170003
Resumo
Objetivo: Avaliar a eficácia de um novo marcador cirúrgico na confecção da capsulorrexe anterior, analisando o dimensionamento e formato, comparando-o com a capsulorrexe confeccionada manualmente.
Métodos: Três residentes de oftalmologia do HUOL e um oftalmologista em treinamento realizaram, cada um, 10 capsulorrexes em olhos de porco enucleados. Em cinco olhos utilizou-se o marcador e em cinco não. As imagens foram calibradas com régua de referência para análise morfométrica digital. O diâmetro alvo foi 5 mm (perímetro 15,7 mm, área 19,652 mm²). Avaliaram-se diâmetros máximo, mínimo e médio, perímetro, área e desvio em relação ao diâmetro ideal.
Resultados:
Com marcador: diâmetro médio 5,44 mm (±0,89), perímetro 17,52 mm (±1,92), área 24,73 mm² (±1,92).
Sem marcador: diâmetro médio 6,37 mm (±0,67), perímetro 20,14 mm (±2,09), área 32,62 mm² (±6,32).
Diferenças significativas (p<0,001).
Conclusão: O novo marcador foi eficaz na confecção da capsulorrexe, resultando em diâmetros e áreas mais próximos do ideal, mostrando-se superior ao método manual.
Descritores: Capsulorrexe / instrumentação; Extração de catarata / instrumentação; Lasers.
Introdução
A cirurgia de catarata com implante de lente intraocular é o procedimento cirúrgico mais realizado no mundo, com mais de 3 milhões de casos anuais nos EUA e cerca de 550 mil novos casos no Brasil. Apesar dos avanços técnicos, etapas críticas da cirurgia dependem da habilidade manual do cirurgião — sendo a capsulorrexe uma das mais desafiadoras.
A confecção adequada da capsulorrexe contínua circular é essencial para segurança nas etapas de hidrodissecção, facoemulsificação e aspiração cortical, garantindo centralização e estabilidade da lente intraocular. Um formato circular e centralizado, cobrindo 0,5 mm do bordo da lente em 360°, é considerado o ideal.
Capsulorrexes irregulares podem causar descentração e aberrações ópticas, principalmente em lentes premium. Embora o laser de femtosegundo proporcione precisão superior, seu alto custo limita seu uso em sistemas públicos.
Com base na experiência de mais de 20 anos no ensino da cirurgia de catarata na UFRN, os pesquisadores desenvolveram um marcador cirúrgico de baixo custo para padronizar e auxiliar a execução da capsulorrexe.
Métodos
O marcador é composto por duas peças de aço inoxidável, com extremidades semicirculares de 5 mm de diâmetro e 1 mm de espessura, ligadas a uma haste inclinada em 5° em relação à semicircunferência e 15° ao cabo.
O estudo contou com três residentes (R3) e um oftalmologista em treinamento, cada um realizando 10 capsulorrexes em olhos de porco (5 com marcador e 5 sem).
As cápsulas foram coradas com azul de tripano 10% e endurecidas com solução de formaldeído 30% e metilcelulose 2% para simular o comportamento humano. As capsulorrexes foram realizadas com pinça Jones-Inamura e fotografadas com microscópio cirúrgico Verion™ (Alcon, EUA), usando régua para calibração do software de análise morfométrica desenvolvido pela Cambuí Labs (Natal, Brasil).
As medidas avaliadas incluíram diâmetro máximo, mínimo, médio, perímetro, área e desvio de curvatura, comparando os grupos “com marcador” e “sem marcador”. A análise estatística utilizou o programa Stata 11 com regressão múltipla (p<0,05).
Resultados
O perímetro alvo (círculo de 5 mm) é 15,7 mm.
-
Sem marcador: 20,14 mm (±2,09).
-
Com marcador: 17,52 mm (±1,92) (p<0,001).
A área alvo (5 mm) é 19,65 mm².
-
Sem marcador: 32,62 mm² (±6,36).
-
Com marcador: 24,73 mm² (±1,92) (p<0,001).
Diâmetros:
-
Máximo: 7,01 mm (sem) vs 6,20 mm (com).
-
Mínimo: 5,83 mm (sem) vs 4,93 mm (com).
-
Médio: 6,37 mm (sem) vs 5,44 mm (com).
Desvio de curvatura: 0,90 (sem) vs 0,87 (com) (p=0,06).
Aspect ratio: 1,21 (sem) vs 1,26 (com) (p=0,09).
Os resultados mostram que o uso do marcador aproximou as medidas do valor ideal (5 mm), demonstrando maior precisão e uniformidade.
Discussão
A capsulorrexe contínua e regular é essencial para o sucesso da cirurgia de catarata, permitindo manobras seguras e melhor centragem da lente intraocular. Capsulorrexes mal centradas ou irregulares podem aumentar o risco de opacificação da cápsula posterior (PCO) e descentração da lente.
O marcador cirúrgico proposto permitiu maior reprodutibilidade e precisão, mesmo entre cirurgiões em treinamento. Embora não tenha havido diferença estatisticamente significativa no aspecto ou curvatura, houve tendência favorável ao marcador.
O instrumento oferece uma alternativa acessível ao femtosecond laser, com grande relevância socioeconômica para o contexto brasileiro, podendo melhorar a qualidade e segurança na formação cirúrgica.
Conclusão
O novo marcador cirúrgico demonstrou ser eficaz no auxílio à confecção da capsulorrexe anterior, produzindo resultados mais precisos e uniformes do que o método manual.
Além disso, pode ser uma ferramenta didática útil no treinamento de cirurgiões em formação, oferecendo resultados próximos ao ideal de 5 mm.
Referência:
Faria MAR, Ávila MP, Pinheiro FI, Faria BM, Saraiva VNP, Miranda JMD, Pinto GMQV, Araújo Neto LU, Santos DCPF. Avaliação da eficácia de um novo marcador cirúrgico para capsulorrexe anterior. Rev Bras Oftalmol. 2017;76(1):11–16. DOI: 10.5935/0034-7280.20170003.