Trabeculotomia transluminal assistida por gonioscopia para glaucoma: resultados de 1 ano e preditores de sucesso

Gonioscopy-Assisted Transluminal Trabeculotomy for Glaucoma: 1-Year Outcomes and Success Predictors

Trabeculotomia transluminal assistida por gonioscopia para glaucoma: resultados de 1 ano e preditores de sucesso

Autores:
Bruno M. Faria, MD¹; Vital P. Costa, MD, PhD²; Gustavo H.L. Melillo, MD³; Fabio B. Daga, MD, PhD⁴; Ana L.B. Scoralick, MD⁴⁻⁵; Augusto Paranhos Jr, MD, PhD⁴; Fábio N. Kanadani, MD, PhD⁴⁻⁶; Tiago S. Prata, MD, PhD⁴⁻⁶

¹ Department of Ophthalmology, Federal University of Rio Grande do Norte, Natal, Brazil.
² Department of Ophthalmology, University of Campinas, Campinas, Brazil.
³ College of Medicine & Veterinary Medicine, University of Edinburgh, Edinburgh, Scotland.
⁴ Department of Ophthalmology, Federal University of São Paulo, São Paulo, Brazil.
⁵ Glaucoma Institute, Belo Horizonte, Brazil.
⁶ Department of Ophthalmology, Mayo Clinic, Jacksonville, Florida, USA.

Publicado em: Journal of Glaucoma, 2022;31(6):443–448.
DOI: 10.1097/IJG.0000000000002025
Licença: Copyright © 2022 Wolters Kluwer Health, Inc. Todos os direitos reservados.


Precis

Os resultados sugerem que a trabeculotomia transluminal assistida por gonioscopia (GATT) é uma opção eficaz e segura para o manejo cirúrgico do glaucoma de ângulo aberto (OAG). A idade avançada foi o único fator de risco significativo para falha.


Objetivo

Relatar os resultados clínicos de 12 meses, o perfil de segurança e os preditores de sucesso da GATT em pacientes com glaucoma de ângulo aberto.


Métodos

Estudo retrospectivo de pacientes (≥18 anos) com glaucoma de ângulo aberto não controlado clinicamente, submetidos à GATT isolada ou combinada com facoemulsificação (PHACO-GATT) entre janeiro de 2018 e janeiro de 2020.

O desfecho primário foi o sucesso em 12 meses, definido como pressão intraocular (PIO) <15 mmHg com redução ≥20% ou diminuição de pelo menos 2 medicações em comparação ao pré-operatório. Os desfechos secundários foram preditores de sucesso e parâmetros de segurança.


Resultados

Foram incluídos 73 olhos (38 GATT; 35 PHACO-GATT) de 58 pacientes, idade média 54,8 ± 11,6 anos.
Após 12 meses de seguimento, a PIO média reduziu-se de 24,9 ± 8,5 mmHg para 12,1 ± 2,1 mmHg (p < 0,001).
O número médio de medicamentos caiu de 3,5 ± 0,7 para 1,2 ± 1,2 (p < 0,001).

A taxa de sucesso foi de 87% em 12 meses, sem diferença significativa entre GATT (85%) e PHACO-GATT (91%) (p = 0,330).
A idade foi o único fator associado significativamente ao sucesso cirúrgico (HR = 1,35; p = 0,012), mesmo após ajuste para PIO e número de colírios pré-operatórios. Pacientes com mais de 60 anos apresentaram risco de falha 10,9 vezes maior (p = 0,026).

A complicação pós-operatória mais comum foi o hifema transitório (39%), com duração média de 5 dias. Nenhum evento adverso grave foi relatado.


Conclusões

A GATT mostrou-se eficaz e segura para reduzir a PIO com ou sem extração de catarata em casos de glaucoma de ângulo aberto. Pacientes com idade ≥60 anos apresentaram maior risco de falha em comparação aos mais jovens.


Introdução

O glaucoma é uma neuropatia óptica multifatorial caracterizada pela degeneração progressiva das células ganglionares da retina e perda axonal. A elevação da pressão intraocular (PIO) é o principal fator de risco modificável, e sua redução é o foco do tratamento para prevenir dano estrutural e funcional adicional.

A ideia de que a abertura mecânica da malha trabecular reduz a resistência ao escoamento do humor aquoso — e, portanto, a PIO — não é nova. A trabeculotomia ab externo tem sido usada há décadas como alternativa cirúrgica para o glaucoma de ângulo aberto. No entanto, as técnicas ab interno surgiram recentemente como opções menos invasivas, poupando conjuntiva e esclera, dentro do grupo das microcirurgias minimamente invasivas para glaucoma (MIGS).

A GATT, descrita por Grover et al., é uma técnica ab interno destinada ao tratamento de glaucomas de ângulo aberto, congênito primário e juvenil, com bons resultados de controle pressórico e redução no número de medicações.

Como a introdução do GATT na prática clínica é recente, poucos estudos avaliaram resultados de médio e longo prazo. Este trabalho busca preencher essa lacuna, analisando resultados de 1 ano, segurança e preditores de sucesso em pacientes submetidos à GATT isolada ou combinada à cirurgia de catarata.


Pacientes e Métodos

Estudo retrospectivo, aprovado pelo Comitê de Ética do Hospital Universitário Onofre Lopes (UFRN), seguindo os princípios da Declaração de Helsinque.

Incluíram-se pacientes ≥18 anos com glaucoma de ângulo aberto (primário ou secundário) não controlado clinicamente, submetidos à GATT entre janeiro de 2018 e janeiro de 2020. O controle clínico foi definido conforme progressão anatômica e/ou funcional ou PIO acima da meta estabelecida.

Foram coletados dados de PIO, número de medicações, contagem endotelial, desvio médio do campo visual, complicações e reoperações. Apenas pacientes com seguimento mínimo de 12 meses foram incluídos.

Critérios de sucesso: PIO <15 mmHg e redução ≥20% ou ≥2 medicações. Falha: não atingir critérios em duas visitas consecutivas, perda de percepção luminosa ou necessidade de nova cirurgia.


Técnica cirúrgica

Todas as cirurgias foram realizadas por um único cirurgião (B.M.F.).

Após paracenteses nasal e temporal, injetou-se lidocaína com carbacol e metilcelulose 2%. Realizou-se goniotomia nasal com agulha 26G e inseriu-se uma sutura de polipropileno 5-0 termicamente atenuada, avançada 360° pelo canal de Schlemm com pinça microcirúrgica. A extração da sutura completava a trabeculotomia circunferencial.

Nos casos combinados (PHACO-GATT), a facoemulsificação e o implante da lente intraocular foram realizados antes do GATT, utilizando a mesma paracentese.

O pós-operatório incluiu moxifloxacino, pilocarpina 2% e prednisolona 1%, com redução gradual da corticoterapia nas quatro primeiras semanas.


Resultados

Foram incluídos 73 olhos de 58 pacientes (idade média 54,8 ± 11,6 anos).
Após 12 meses, a PIO reduziu-se em média 51,3% (de 24,9 para 12,1 mmHg; p < 0,001), e o número de colírios caiu 71,4% (de 3,5 para 1,0; p < 0,001).

A taxa global de sucesso foi 87%, sendo 85% para GATT isolado e 91% para PHACO-GATT.
A idade foi o único fator preditor significativo de falha (HR = 1,35; p = 0,012).

A perda endotelial média foi de 5,4% (p = 0,021), sem diferença entre os grupos.
O campo visual manteve-se estável (-10,8 dB vs -11,1 dB; p = 0,320).

O hifema ocorreu em 39% dos casos, com duração média de 5 dias. Sete olhos (9,6%) precisaram de nova cirurgia (micropulso ou trabeculectomia). Nenhuma complicação grave foi observada.


Discussão

Os resultados mostraram alta eficácia e segurança do GATT no controle do glaucoma de ângulo aberto.
A taxa de sucesso de 87% foi comparável à de estudos prévios (83–92%), confirmando a consistência da técnica.

A redução expressiva da PIO e da carga medicamentosa foi acompanhada de baixo índice de complicações. O hifema foi o evento mais comum, autolimitado e esperado na técnica.

A idade mais avançada foi associada a maior risco de falha, possivelmente devido à menor funcionalidade do canal de Schlemm e da rede de canais coletores ao longo do tempo. Assim, o GATT pode oferecer melhores resultados em pacientes mais jovens.

A perda endotelial observada foi pequena e clinicamente irrelevante, reforçando o perfil seguro da técnica.


Conclusão

A GATT é um procedimento minimamente invasivo eficaz e seguro no manejo do glaucoma de ângulo aberto, com redução significativa da PIO e da necessidade de medicamentos.
O procedimento pode ser realizado isoladamente ou associado à cirurgia de catarata, sem prejuízo dos resultados.
Pacientes com menos de 60 anos apresentam melhores taxas de sucesso.


Autor correspondente:
Dr. Tiago S. Prata – E-mail: t.prata0807@gmail.com

Conflito de interesses:
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Financiamento:
Nenhum suporte financeiro.


Referência:
Faria BM, Costa VP, Melillo GHL, Daga FB, Scoralick ALB, Paranhos A Jr, Kanadani FN, Prata TS. Gonioscopy-Assisted Transluminal Trabeculotomy for Glaucoma: 1-Year Outcomes and Success Predictors. Journal of Glaucoma. 2022;31(6):443–448. DOI: 10.1097/IJG.0000000000002025


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Médico Oftalmologista especialista em glaucoma

Atuo com foco no diagnóstico, prevenção e tratamento do glaucoma em suas diversas formas — adulto, congênito, infantil e juvenil. Além disso, realizo cirurgias avançadas e exames de alta precisão, sempre com base em ciência e tecnologia de ponta.

Mais de 13 anos de experiência clínica e cirúrgica

Minha trajetória é marcada por dedicação constante à oftalmologia e ao ensino. Trouxe e aprimorei no Brasil a técnica de cirurgia minimamente invasiva para glaucoma (GATT), tornando-me referência nacional e responsável por ensinar profissionais em todo o país.

Reconhecimento, formação internacional e inovação

Com formação em instituições de referência como a Universidade de São Paulo (USP), a UNICAMP e o Wills Eye Institute (EUA), o Dr. Bruno Faria construiu uma trajetória marcada pela dedicação à pesquisa, ao ensino e à inovação cirúrgica. Reconhecido por sua atuação em glaucoma, destaca-se pela combinação entre conhecimento técnico, atualização constante e cuidado humanizado com seus pacientes.

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